Há uma aparente diferença entre o Deus apresentado no Antigo Testamento e Jesus no Evangelho. De um lado, encontramos palavras sobre justiça e punição; de outro, Jesus nos ensina a perdoar “setenta vezes sete”.
Mas será que Deus mudou? Ou será que nós é que, muitas vezes, interpretamos Deus a partir da lógica humana?
Em Gênesis 4, Deus diz que quem matasse Caim sofreria uma vingança sete vezes maior. Não era um convite à violência, mas justamente uma forma de interromper a espiral de vingança que começava a dominar a humanidade. Deus coloca um limite: ninguém deveria transformar a morte de Abel em um ciclo interminável de mortes.
Lameque, porém, deturpa essa palavra. “Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4,24). Ele transforma aquilo que era uma barreira contra a vingança em justificativa para uma vingança ainda maior.
Séculos depois, Jesus retoma essa expressão e lhe dá seu verdadeiro sentido: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22). A humanidade havia aprendido a multiplicar a vingança; Jesus ensina a multiplicar o perdão.
É o mesmo Deus. A mesma bondade. A mesma vontade de romper o ciclo do mal. O que muda não é Deus, mas a compreensão humana.
Onde o homem enxerga motivo para revidar, Deus aponta um caminho para interromper o mal. Onde a humanidade multiplica a violência, Jesus multiplica o perdão.
Setenta vezes sete não é contar quantas vezes devemos perdoar. É aprender a viver na lógica de Deus: não multiplicar o mal, mas multiplicar a misericórdia.









