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Jesus 2

Colheu o cêntuplo, porque o Senhor o abençoava

As leituras deste 15º Domingo do Tempo Comum nos convidam a contemplar um dos maiores mistérios da ação de Deus: a força da sua Palavra.

Ao longo da Sagrada Escritura, encontramos números que não foram colocados ali por mera contabilidade. Na linguagem bíblica, eles carregam significado, revelam a intensidade da ação de Deus e ajudam o povo a compreender a profundidade da mensagem.

No Evangelho, Jesus conclui a parábola do semeador dizendo:

“A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta.” (Mt 13,23)

À primeira vista, parecem apenas números para expressar uma grande colheita. Mas será apenas isso?

Talvez Jesus estivesse despertando na memória de seus ouvintes uma antiga promessa das Escrituras.

No Livro do Gênesis encontramos um episódio marcante da vida de Isaac:

“Isaac semeou naquela terra e, naquele mesmo ano, colheu o cêntuplo, porque o Senhor o abençoava.” (Gn 26,12)

Para compreender essa passagem, precisamos olhar o seu contexto.

Havia uma grande fome na terra de Canaã. Anos antes, diante de uma crise semelhante, Abraão havia descido ao Egito em busca de alimento. Isaac provavelmente pensava em fazer o mesmo. No entanto, Deus lhe ordena:

“Não desças ao Egito; permanece na terra que eu te indicar.” (Gn 26,2)

Humanamente, aquela ordem parecia não fazer sentido. Permanecer significava continuar numa terra castigada pela seca, onde as perspectivas de uma boa colheita eram mínimas.

Mesmo assim, Isaac obedeceu.

Ele lançou a semente justamente em meio à escassez.

E Deus fez o impossível acontecer.

Na agricultura do mundo antigo, uma boa colheita já era motivo de grande alegria. Colheitas ainda maiores eram vistas como sinais extraordinários da bênção divina. Por isso, quando a Escritura afirma que Isaac colheu o cêntuplo, ela está proclamando que aquela abundância não foi fruto apenas do trabalho humano, mas da ação poderosa de Deus.

É exatamente essa imagem que Jesus retoma na parábola do semeador.

A Palavra de Deus possui uma fecundidade que supera todas as expectativas humanas. Quando encontra um coração disposto a acolhê-la, produz frutos que ninguém seria capaz de imaginar.

Essa certeza já havia sido anunciada pelo profeta Isaías na primeira leitura:

“Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra (…), assim a palavra que sair de minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo o que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la.” (Is 55,10-11)

A chuva fecunda a terra.

A semente produz a colheita.

A Palavra transforma o coração.

Nada do que Deus faz é inútil.

O Evangelho mostra que a mesma semente caiu em diversos terrenos. Assim também acontece conosco. Cada coração possui sua própria história, suas alegrias, suas feridas e suas resistências. Porém, a semente é sempre a mesma: é a Palavra de Deus, lançada com generosidade sobre todos.

E Deus nunca a envia em vão.

Talvez hoje nosso coração seja um terreno endurecido, cheio de pedras ou sufocado pelos espinhos das preocupações. Ainda assim, Deus continua semeando, porque conhece aquilo que nós mesmos muitas vezes desconhecemos: a capacidade que temos de produzir frutos quando nos deixamos transformar pela sua graça.

Na segunda leitura, São Paulo amplia ainda mais esse horizonte ao afirmar:

“A criação inteira geme e sofre como em dores de parto até o presente.” (Rm 8,22)

Há um mundo inteiro esperando que os filhos de Deus revelem quem realmente são.

Há pessoas ao nosso lado aguardando uma palavra de esperança, um gesto de misericórdia, uma visita, um perdão, uma mão estendida.

Esperam, muitas vezes sem saber, que alguém lhes anuncie Cristo através da própria vida.

Por isso, a pergunta da liturgia não é quantos frutos os outros produzem.

A pergunta é: que tipo de terreno estou oferecendo à Palavra de Deus?

Somente Deus conhece profundamente o nosso coração. Somente Ele sabe até onde podemos chegar quando confiamos na sua vontade.

Se Isaac colheu o cêntuplo em meio à fome porque confiou na promessa de Deus, também nós podemos produzir frutos muito além do que imaginamos quando permitimos que a Palavra transforme nossa vida.

Entreguemo-nos, portanto, à vontade do Senhor.

Que sejamos terra boa.

Que a Palavra encontre espaço para germinar em nós.

E que os frutos da nossa fé alcancem aqueles que Deus colocou ao nosso redor, especialmente as ovelhas que esperam, muitas vezes em silêncio, por quem as conduza ao encontro do Bom Pastor.

Porque a Palavra que Deus semeia jamais volta sem produzir fruto.

No Eco da Palavra, buscamos refletir sobre os detalhes das leituras diárias que podem passar despercebidos nas homilias. Cada versículo tem uma riqueza infinita, e aqui, ecoamos essas pequenas grandes revelações para alimentar a fé e aprofundar a vivência da Palavra de Deus no dia a dia.