Celebramos a solenidade da Santíssima Trindade, e a liturgia nos coloca diante de dois extremos: o mistério indecifrável de Deus e a dureza do coração humano que deseja compreender tudo antes de acreditar.
O Evangelho nos recorda: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3,16)
O Deus uno e trino entregou-Se por amor. O Pai oferece o Filho, o Filho entrega-Se pela humanidade, e o Espírito Santo continua conduzindo a Igreja. Ainda que sejam três Pessoas, Deus é um só. E justamente aí está o mistério: Deus Se doa inteiramente, sem deixar de ser Uno.
Nossa razão tenta alcançar este mistério, mas ele permanece acima da nossa compreensão. Não porque Deus queira esconder-Se de nós, mas porque a fé não nasce da plena certeza.
Onde tudo é completamente explicado, já não existe espaço para a fé.
A própria Escritura nos ensina: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem.” (Hb 11,1)
Por isso, fé e certeza caminham em sentidos opostos. Ou temos o domínio completo daquilo que vemos, ou damos o passo confiando naquilo que ainda não compreendemos plenamente.
A oração de Moisés revela exatamente a realidade humana: “Peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua.” (Ex 34,9)
Somos um povo de cabeça dura. Queremos sinais, respostas imediatas, provas visíveis. Temos dificuldade em confiar. Queremos tocar antes de acreditar. Como Tomé, muitas vezes dizemos: “Se eu não vir, não acreditarei” (cf. Jo 20,25).
Mas Deus não desiste de caminhar conosco.
São Paulo nos mostra o caminho para vencer essa dureza do coração: “Alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco.” (2Cor 13,11)
O aperfeiçoamento espiritual passa pela concórdia, pela humildade e pela confiança. A fé amadurece quando aprendemos a abandonar o orgulho de querer controlar tudo.
Temos medo do desconhecido. E por isso tentamos prender Deus dentro da lógica humana.
Mas uma das expressões mais repetidas em toda a Bíblia é justamente: “Não temais.”
A fé combate o medo, porque quem confia em Deus aprende a caminhar mesmo sem enxergar todo o caminho.
Abraão saiu sem saber para onde iria. Pedro caminhou sobre as águas enquanto manteve os olhos em Cristo. Maria disse “sim” sem compreender completamente os planos de Deus.
A santidade nasce exatamente aí: acreditar nas promessas e continuar caminhando.
Nunca conheceremos plenamente a Deus apenas pelo entendimento. Conhecemos a Deus buscando-O, amando-O e permanecendo com Ele.
O mistério da Santíssima Trindade não é um convite para decifrar Deus, mas para mergulhar n’Ele.
E talvez a maior prova de fé seja justamente continuar dizendo: “Eu não compreendo tudo… mas confio.”








