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ouvi injurias

As palavras de poucos podem conduzir muitos

Há personagens do Antigo Testamento que não apenas anunciaram a vinda do Messias, mas viveram, em sua própria história, uma antecipação de uma parcela de seus sofrimentos. Jeremias é um deles.

Na primeira leitura, ouvimos seu lamento: “Eu ouvi as injúrias de tantos homens e os vi espalhando o medo em redor: ‘Denunciai-o! Denunciemo-lo!'” (Jr 20,10).

Jeremias não era perseguido por ter cometido algum crime. Seu único “erro” era anunciar a verdade de Deus. Sacerdotes, autoridades e até mesmo pessoas próximas desejavam seu silêncio. A mentira espalhou-se mais rapidamente que a verdade, e o medo tornou-se instrumento de manipulação.

Séculos depois, essa mesma cena reaparece de maneira ainda mais intensa na vida de Jesus.

Os chefes dos sacerdotes levantaram falsas acusações, procuraram testemunhas mentirosas (Mt 26,59-61) e convenceram a multidão a pedir a morte daquele que só havia feito o bem (Mt 27,20). Bastaram as palavras de alguns para que muitos gritassem: “Crucifica-o!” (Lc 23,21).

Os maus pastores conduziram as ovelhas ao erro. Aqueles que deveriam ensinar a verdade utilizaram sua autoridade para alimentar o medo, a inveja e o ódio. A multidão não conhecia verdadeiramente Cristo; conhecia apenas aquilo que lhe haviam contado sobre Ele.

Por isso, o Evangelho de hoje começa com um convite tão atual: “Não tenhais medo.” (Mt 10,26).

O medo sempre foi uma das maiores armas do inimigo. Ele leva as pessoas a julgarem sem conhecer, condenarem sem ouvir e seguirem a multidão sem discernir.

Mas Jesus pede exatamente o contrário. O discípulo não pode viver guiado pelos rumores, pelas acusações ou pela opinião da maioria. Ele deve permanecer firme na verdade, mesmo quando ela se torna impopular.

Jeremias experimentou a rejeição, mas também fez uma belíssima profissão de confiança: “O Senhor está ao meu lado como forte guerreiro.” (Jr 20,11).

É a mesma confiança que sustenta Cristo em sua Paixão e que deve sustentar cada cristão quando o mundo prefere a mentira à verdade.

A liturgia deste domingo nos convida a um exame de consciência profundo.

Somos daqueles que verificam a verdade antes de repetir uma acusação? Ou também permitimos que as palavras de poucos conduzam nosso julgamento sobre os outros?

Se o pecado entrou no mundo por um homem, Deus escolheu salvar o mundo também por um só Homem. São Paulo conclui: “Muito mais abundante foi a graça de Deus e o dom concedido por um só homem, Jesus Cristo.” (Rm 5,15).

Se a mentira possui força para contaminar multidões, a verdade de Cristo possui poder infinitamente maior para libertar os corações.

Que, neste domingo, escolhamos ouvir menos o barulho das multidões e mais a voz do Bom Pastor, que jamais manipula suas ovelhas, mas dá a vida por elas.

No Eco da Palavra, buscamos refletir sobre os detalhes das leituras diárias que podem passar despercebidos nas homilias. Cada versículo tem uma riqueza infinita, e aqui, ecoamos essas pequenas grandes revelações para alimentar a fé e aprofundar a vivência da Palavra de Deus no dia a dia.