Era pequeno, sinuoso como uma serpente.
E quando contemplou a obra do Criador,
viu nela o reflexo do Amor — e odiou o que era belo.
A inveja inflamou-lhe o peito,
e da luz nasceu a sombra.
Usou da fragilidade da criatura para seduzi-la,
prometendo poder e glória: “sereis como deuses” (Gn 3,5).
E o coração, iludido pelo brilho da mentira,
provou o fruto do engano.
Então, o Éden se fechou.
A terra conheceu o suor e a dor,
a mulher, as dores do parto,
e a serpente ouviu a sentença eterna:
“Porei inimizade entre ti e a mulher,
entre a tua descendência e a descendência dela.
Ela te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3,15)
Expulsa do jardim, a serpente rastejou pela poeira dos séculos.
Cresceu alimentando-se dos pecados dos homens:
a soberba, a inveja, a avareza, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça.
E o que era serpente tornou-se dragão.
“E apareceu outro sinal no céu:
um grande dragão vermelho,
com sete cabeças e dez chifres,
e sobre as cabeças sete diademas.” (Ap 12,3)
As sete cabeças simbolizavam a plenitude da astúcia e da mentira,
os dez chifres, o poder terreno corrompido.
O dragão rugia contra o Altíssimo,
mas não podendo ferir o Criador,
voltou-se contra a sua obra.
Sabendo que o Criador se faria criatura,
o dragão ergueu-se para devorar o Menino
— o Deus feito frágil, o eterno em forma de infante.
Mas o Menino repousava nos braços da Mulher.
Ali, o frágil tornou-se invencível,
o indefeso se fez rei.
A Mulher —
a do anúncio, da promessa, da plenitude dos tempos —
pisava o pó onde a serpente se contorcia.
Seu manto refletia o Sol,
e dela brotava o eco do “Sim” que abriu o Céu.
“Uma mulher vestida de sol,
com a lua debaixo dos seus pés
e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas.” (Ap 12,1)
Toda a criação se inclinou:
os anjos formaram um exército,
a terra ajudou a mulher,
e o dragão, furioso, foi lançado à ruína.
“Miguel e seus anjos combateram o dragão,
e o dragão foi precipitado,
aquele que seduz o mundo inteiro.” (Ap 12,7-9)
E a mulher foi chamada bendita entre todas as mulheres,
pois dela veio o fruto da redenção.
Seu Filho, o Cordeiro, governa com cetro de ferro,
mas seu trono é a cruz,
e sua justiça é feita de misericórdia.
“E o Deus da paz esmagará em breve Satanás
debaixo dos vossos pés.” (Rm 16,20)
O dragão caiu.
E a mulher, coroada de estrelas,
pisou a cabeça da serpente —
como no princípio fora prometido,
e para sempre será cumprido.









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