“Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus.” (At 1,3)
O número quarenta surge novamente diante de nós. Mas agora não é o deserto da dor, do jejum ou da provação. É a preparação da esperança. É a “quaresma” vivida ao lado do Ressuscitado.
Na antiga Quaresma caminhávamos rumo à cruz. Agora, caminhamos com Cristo vencedor da morte, aprendendo a viver como homens novos.
Antes de subir aos céus, Jesus dá uma ordem clara: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai.” (At 1,4)
Não era apenas uma questão de lugar. Era um chamado à permanência. Permanecer até serem revestidos da força do Alto. Permanecer até compreenderem que a missão não nasceria das capacidades humanas, mas da ação do Espírito Santo.
Os discípulos precisavam ser preparados. Ainda carregavam medos, dúvidas e feridas da paixão. Mas Cristo ressuscitado pacientemente os forma durante quarenta dias. O Ressuscitado não abandona os seus sem antes os preparar.
Assim também acontece conosco. Deus não nos envia sem antes moldar nosso coração.
Cristo é a cabeça da Igreja. “Ele é a Cabeça do corpo, isto é, da Igreja.” (Cl 1,18)
Ele ocupa dois lugares fundamentais na construção do Reino: é a pedra angular, o primeiro fundamento sobre o qual tudo repousa: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.” (Sl 117,22)
Mas também é a cabeça que guia, orienta e conduz todo o corpo.
E nós? “Vós sois o Corpo de Cristo e sois membros dele, cada um por sua parte.” (1Cor 12,27)
É através de nós que suas obras se tornam visíveis no mundo. São nossas mãos que acolhem, nossos pés que caminham ao encontro dos necessitados, nossa voz que anuncia o Evangelho. O corpo manifesta aquilo que a cabeça deseja realizar.
Mas um corpo só se move corretamente quando está unido à cabeça.
Por isso existe a preparação. Por isso existe esse tempo de espera, oração e permanência. Precisamos aprender a vontade de Cristo para agir segundo sua direção, e não segundo nossos impulsos.
A Ascensão não é abandono. “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28,20)
Jesus sobe aos céus, mas confia à Igreja sua missão.
E talvez muitos de nós permaneçamos como os discípulos naquele instante: olhando para o céu, paralisados, presos apenas à contemplação, enquanto o mundo espera testemunhas.
Então ecoa a voz dos anjos: “Homens da Galileia, por que ficais aqui parados olhando para o céu?” (At 1,11)
A verdadeira preparação termina em missão.
O Cristo que sobe aos céus agora quer agir através do seu Corpo, que somos nós.








