No princípio, “Deus viu que tudo o que fez era muito bom” (Gn 1,31). A criação nasce do bem.
O homem nasce do bem. Há dentro de nós uma sede profunda de amar, proteger, construir, servir, cuidar. Mesmo feridos, ainda buscamos aquilo que acreditamos ser bom.
Mas é exatamente aí que a serpente ataca.
No Éden, o inimigo não convence o homem a desejar o mal por si mesmo. Ele deturpa a compreensão do que é bom e do que é mau. Ele semeia neblina sobre a verdade. E quando a visão se torna turva, o homem continua entregando toda sua força… porém para a direção errada.
Pois o homem entrega tudo pelo bem que acredita.
Se acreditar que destruir é salvar, destruirá com entusiasmo.
Se acreditar que humilhar é defender a verdade, humilhará com fervor.
Se acreditar que julgar rapidamente é justiça, condenará sem compreender.
E assim o pecado vai levantando névoas sobre o coração humano: a pressa, o orgulho, a angústia, a repulsa, o ódio, o medo, a vaidade. Tudo isso obscurece a visão da alma.
O imediatismo nos tornou incapazes de permanecer tempo suficiente diante da verdade. Não suportamos ouvir até o fim. Não suportamos esperar a explicação completa. Não suportamos silenciar para compreender.
E uma verdade interrompida se torna meia verdade — e meia verdade costuma ferir como mentira inteira.
Por isso Cristo diz que “o mundo não é capaz de receber o Espírito da Verdade” (Jo 14,17).
Não porque Deus negue a Verdade ao mundo, mas porque o coração tomado pelas neblinas já não consegue enxergá-la claramente.
Quantas vezes alguém faz o mal sem desejar conscientemente o mal… Está apenas cego.
E vós, que sois da Verdade, precisais compreender isso.
“Será melhor sofrer praticando o bem, se esta for a vontade de Deus, do que praticando o mal” (1Pd 3,17).
Cristo sofreu não porque fez o mal, mas porque o mundo, envolto em trevas, confundiu a Luz com ameaça. E quem segue Cristo experimentará muitas vezes essa mesma dor: ser mal interpretado ao tentar amar, ser atacado ao tentar servir, ser ferido ao tentar permanecer fiel à Verdade.
Mas o cristão não combate cegueira com outra cegueira.
Quem te ataca também busca, de algum modo, o bem. Porém suas percepções foram cobertas pela fumaça do pecado, pelas dores, pelos medos, pelas paixões desordenadas. E por isso a nossa missão não é odiar os cegos, mas testemunhar a Luz.
O Espírito Santo foi prometido justamente para dissipar as neblinas do coração humano.
Somente o Espírito da Verdade pode devolver ao homem a capacidade de enxergar claramente outra vez.
Somente Ele pode nos ensinar a esperar, discernir, compreender e amar sem deformar a verdade.
Por isso, antes de julgar, o cristão silencia.
Antes de condenar, escuta.
Antes de reagir, reza.
Porque sabe que até mesmo dentro de si existem neblinas que precisam ser dissipadas pela graça.
E quem permanece em Cristo aprende, pouco a pouco, a enxergar novamente o mundo como Deus o viu no princípio: bom.









