O 1º Domingo da Quaresma nos conduz às origens: o jardim, a tentação, a queda… e, ao mesmo tempo, ao deserto, onde Cristo vence aquilo que Adão não conseguiu vencer.
São Paulo, na carta aos Romanos, afirma: “Na realidade, antes de ser dada a Lei, já havia pecado no mundo. Mas o pecado não pode ser imputado quando não há lei.” (Rm 5,13)
Essa afirmação é profunda e exige atenção. Antes de Moisés receber a Lei no Sinai, o pecado já existia. A desobediência de Adão já havia ferido a humanidade. Porém, São Paulo explica que, quando não há uma lei explicitamente conhecida, o pecado não pode ser imputado da mesma forma.
Isso não significa que o pecado deixa de ser pecado. Significa que a culpa é menor quando há ignorância.
A Igreja sempre ensinou: o pecado cometido na ignorância possui menor responsabilidade moral. Quem não conhece plenamente a Lei não pode ser julgado com o mesmo peso daquele que conhece e desobedece conscientemente.
Mas atenção: Mesmo o ignorante sofre as consequências do pecado. A desordem existe, ainda que a consciência não a compreenda totalmente.
Desde o princípio, o ser humano carrega dentro de si uma ânsia por conhecimento. Isso não é ruim. É parte da nossa natureza. Fomos criados para buscar a verdade.
O problema não está no desejo de conhecer.
O problema está no modo e no tempo.
Adão e Eva desejaram “ser como Deus”. Comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal significava apropriar-se de uma realidade para a qual ainda não estavam preparados. Foi um conhecimento buscado pela desobediência.
E o conhecimento gerado pela desobediência gera morte.
Sem fé, a busca do saber se transforma em soberba.
Sem obediência, o conhecimento se torna ruptura.
Sem Deus, a inteligência se desordena.
Hoje vemos isso com clareza: muito conhecimento técnico, mas pouca sabedoria espiritual.
Informação sem verdade.
Ciência sem ética.
Progresso sem direção.
Quando o homem busca o saber sem Deus, ele não se eleva — ele se perde.
Adão e Eva não estavam preparados para aquele fruto.
Assim como uma criança não está preparada para compreender um tratado científico, a humanidade primitiva não estava pronta para certas profundidades.
Por isso Deus educa seu povo aos poucos.
A Lei não foi dada de uma vez só em toda sua plenitude. Deus foi revelando Sua vontade gradualmente, por meio dos profetas, das alianças, da história.
Era uma pedagogia divina.
O próprio Jesus muitas vezes dizia:
“Vós não compreendeis agora…”
“Guardai segredo.”
“Não conteis a ninguém.”
Ele sabia que os corações ainda não estavam maduros.
Deus não nega a verdade.
Ele prepara o coração para recebê-la.
No Evangelho, vemos Jesus Cristo no deserto, sendo tentado.
Onde Adão caiu no jardim da abundância, Cristo vence no deserto da escassez.
A tentação é semelhante: usar a própria força, antecipar o tempo, agir sem confiar plenamente no Pai.
Mas Jesus responde com a Palavra. Ele não toma atalhos. Ele não antecipa a glória. Ele permanece obediente.
A obediência gera vida.
A desobediência gerou morte.
Aprendemos com Virgem Maria:
O Evangelho diz que ela “guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração”.
Maria não exigiu compreender tudo imediatamente.
Ela acolheu, guardou, esperou, interiorizou.
Ela nos ensina que o verdadeiro conhecimento nasce da escuta, da fé e do tempo de maturação interior.
Neste início de Quaresma, somos convidados a rever:
Busco conhecimento com humildade ou com soberba?
Quero respostas imediatas ou confio no tempo de Deus?
A pedagogia divina é paciente. Deus quer que encontremos toda a verdade. Mas cada coisa no seu tempo.
O pecado do ignorante tem menos culpa — mas ainda é pecado.
A ignorância não é ideal; é estágio.
Somos chamados a crescer.
Que nesta Quaresma aprendamos a obedecer antes de compreender plenamente.
Porque a obediência abre o coração para a verdadeira sabedoria — aquela que não gera morte, mas vida eterna.










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