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Quando a Dança Fala do Natal

A linguagem humana é bela, mas limitada.

Há sentimentos que nenhuma frase consegue abarcar.

Há mistérios que escapam das palavras.

Mas a arte — e especialmente a dança — consegue ir além.

Ela transcende, comunica o indizível, move o que está escondido na alma.

O ballet, com sua leveza disciplinada, revela uma verdade profunda: o corpo também fala, reza, canta e anuncia.

Por isso, a dança possui um poder singular: encanta, conduz, transforma.

É capaz de tocar o emocional de quem assiste e de quem se deixa envolver.

E onde existe poder, existe também uma imensa responsabilidade.

A própria Bíblia testemunha esse mistério.

Pela dança, o coração humano pode ser elevado… ou corrompido.

Assim vemos no episódio doloroso, a filha de Herodíades. Seu movimento, tão belo quanto manipulado, agradou a Herodes e se transformou em instrumento de morte, pedindo a cabeça de João Batista. A beleza ali perdeu sua pureza; foi usada para destruição.

Mas, logo ao lado dessa sombra, a Escritura nos apresenta o contraponto da dança: a história da rainha Ester, cujo gesto, presença e graça em movimento tornaram-se caminho de salvação.

Quando o povo judeu estava ameaçado de extermínio, Ester — jovem, bela, sensível, mulher de fé — foi chamada a um gesto de coragem. Ela sabia que, para aproximar-se do rei sem ser chamada, arriscava a própria vida. Mas entrou…

Ester entrou na presença do rei com coragem — com uma delicadeza quase coreografada pela própria Providência — e sua postura, seu encanto e a suavidade do corpo que ora e suplica tocar a mansidão o coração do rei. Podendo assim pedir pela vida de seu povo.

Assim como a dança de Herodíades feriu, a dança de Ester libertou. Uma dança usada para o mal; outra, para a vida.

A arte permanece a mesma; é o coração que a orienta.

Por isso, no tempo do Natal, tempo de promessa, de luz e de recomeço, lembramos que a arte — e especialmente a dança — é chamada a servir ao bem, à beleza e à esperança.

No Natal, celebramos o Deus que entra na história por um corpo, por gestos, por um recém-nascido que respira, chora, que se comunica sem palavras.

O Verbo eterno se fez carne — e se Deus fala pelo corpo, também a dança se torna oração. A dança acolhe esse mistério.

Assim como a estrela despertou os magos, a dança desperta o olhar e a sensibilidade.

Assim como Maria embalou o Menino, o bailarino embala o público em um gesto que toca a alma.

Assim como os pastores correram para ver, o espectador se deixa conduzir para dentro de uma história.

O ballet tem algo profundamente natalino: ele nasce do esforço silencioso, da disciplina, da entrega…como o Deus que veio pequenino, escondido, humilde, mas cheio de luz.

Que cada gesto dançado neste Natal seja um modo de dizer: “Senhor, também o meu corpo Te adora. Também meus movimentos Te bendizem. Também minha arte Te anuncia.”

Que o encanto do ballet lembre ao mundo que o Natal é uma beleza pura… um Deus que desce para nos elevar.

Que cada passo de dança neste tempo santo seja uma oração silenciosa.

Que o ballet que contempla o Natal desperte nos corações o que este tempo mais deseja oferecer: acolhimento, família, união, paz.

Que dancemos não apenas com os pés, mas com a alma inteira.

Pois o Deus que vem pequeno ao mundo é o Deus que transforma cada gesto em luz.

No Eco da Palavra, buscamos refletir sobre os detalhes das leituras diárias que podem passar despercebidos nas homilias. Cada versículo tem uma riqueza infinita, e aqui, ecoamos essas pequenas grandes revelações para alimentar a fé e aprofundar a vivência da Palavra de Deus no dia a dia.