Jesus nos adverte com firmeza: “Em verdade vos digo: dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus. É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mt 19,23-24).
A riqueza, quando mal administrada, fecha o coração e leva ao orgulho, à prepotência e à luxúria. O dinheiro promete poder e controle — justamente o veneno que a serpente ofereceu a Adão e Eva no Éden (Gn 3,1-6). Mas Cristo nos recorda: “Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19,26).
E a Palavra nos apresenta dois retratos que se iluminam mutuamente: o rico e Lázaro (Lc 16,19-31) e a mulher cananeia (Mt 15,21-28).
O rico e Lázaro
O rico vestia-se de púrpura e banqueteava-se diariamente, ostentando uma riqueza que parecia lhe garantir felicidade. Já Lázaro, um pobre coberto de feridas, jazia à porta, desejando apenas as migalhas que caíam da mesa.
As migalhas são justamente aquilo que se escapa acidentalmente. Não é um ato de caridade, mas o desleixo e o desperdício. E estas sobras alimentavam a Lázaro pela providência e os cães o prestavam lhe companhia.
O rico, cego e surdo pela idolatria ao dinheiro, ignorava o clamor do necessitado.
Quando morreu, foi condenado, e ainda quis que Lázaro fosse advertir a seus irmãos do seu destino final. Mas ouviu a sentença: “Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam” (Lc 16,29). Nem mesmo a ressurreição de Cristo seria suficiente para convencer quem fez do dinheiro o seu deus.
O Evangelho diz que tinha cinco irmãos (Lc 16,28). Com ele eram seis — número da imperfeição, símbolo da humanidade que se fecha à graça. Todos estavam perdidos, pois não ouviram nem a Lei, nem os Profetas, e muito menos o próprio Cristo.
Assim, sua abundância financeira revelou-se miséria espiritual.
A mulher cananeia
Em contraste, encontramos a mulher cananeia, estrangeira e excluída da promessa. Ao suplicar pela filha, ouviu primeiro o silêncio de Jesus (Mt 15,23), depois uma resposta dura: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24).
A mulher cananeia não fazia parte do povo judeu. E por isso sua hora ainda não havia chegado. Pois Cristo veio primeiramente ao povo judeu, cuidar de Israel para que depois acolhesse a todos os povos. Cristo não a ignorava, mas não havia chegado a sua hora.
Mesmo assim ela não desistiu. Prostrou-se e insistiu: “Senhor, socorre-me!” (Mt 15,25).
Mesmo quando Jesus lhe disse: “Não é bom tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (Mt 15,26), ela respondeu com humildade e fé: “Sim, Senhor, mas até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mt 15,27).
Cristo escuta e dialoga com a mulher cananeia, mesmo não sendo o momento dela. E o argumento dela é as migalhas que caem para os cães. Justamente aquilo que os ricos judeus não aceitaram caiu aos braços de quem estava ao chão.
Sua persistência na oração tocou o coração de Cristo. Ele então proclamou: “Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feito como desejas” (Mt 15,28).
As migalhas que o rico desprezava tornaram-se, para a mulher cananeia, fonte de graça e salvação. O que os poderosos rejeitaram, Deus concedeu aos pequenos e humildes.
Aqui está o contraponto:
O rico tinha pão em abundância, mas seu coração fechado o levou à perdição. E a cananeia pediu apenas as migalhas — e, com fé perseverante, conquistou a riqueza da graça e a salvação.
Os dois relatos revelam a mesma verdade:
A riqueza material, quando idolatrada, gera surdez, cegueira e dureza de coração.
A riqueza em Cristo, buscada com fé humilde e perseverante, abre as portas do Reino.
Por isso Jesus nos adverte: “Ninguém pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24).
Quem ama a Deus, escuta a sua Palavra e a coloca em prática, vivendo o mandamento do amor: “Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei” (Jo 15,12).
Assim, Cristo nos ensina: não endureçais o coração, não fecheis os ouvidos, mas cultivai a compaixão e a fé perseverante. Pois no Reino, o pouco se torna muito, e até as migalhas alimentam a vida eterna.









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