Às portas do Natal, a Liturgia do 4º Domingo do Advento nos convida a um exercício profundo e exigente: confiar em Deus sem colocar condições, esperar sem desespero e crer sem exigir provas.
É nesse contexto que surge a figura do rei Acaz, um personagem marcado pelo medo, pela ira e pela incapacidade de esperar em Deus.
Um pouco do contexto histórico de Acaz.
Acaz governava Judá em um período de grande instabilidade política. Cercado por ameaças externas, pressionado por alianças e guerras iminentes, seu coração foi tomado pelo medo, que rapidamente se transformou em ira e descontrole interior.
Em vez de confiar no Senhor, Acaz procurou soluções humanas, alianças políticas e estratégias que excluíam Deus.
Por isso, quando o profeta Isaías o convida a pedir um sinal, Acaz responde com palavras aparentemente piedosas, mas profundamente vazias de fé: “Não pedirei, nem tentarei o Senhor.”
À primeira vista, soa como humildade. Na realidade, revela um coração fechado, endurecido e já decidido a não obedecer. Acaz não pede porque não quer mudar, não quer ouvir, não quer esperar. Sua recusa nasce da ira interior, da impaciência e da falta de confiança.
Isaías, então, o adverte com firmeza: “Tende cuidado, acalmai-vos e não tenhais medo. Que o vosso coração não desanime por causa do furor desses dois restos de lenha fumegantes.”
O profeta revela que aquilo que parecia uma grande ameaça era, na verdade, apenas lenha fumegante, algo que faz barulho, solta fumaça, mas já está se apagando.
O problema não estava nos inimigos, mas no coração inquieto de Acaz, incapaz de confiar.
Essa passagem ecoa fortemente em nossa vida. Quantas vezes também não sabemos esperar?
Pedimos mal, pedimos por desespero, por medo, por interesse próprio.
Outras vezes, nem pedimos — não por fé madura, mas porque já desistimos de ouvir a resposta de Deus.
Reclamamos da vida, murmuramos contra tudo e todos, e, aos poucos, fazemos da reclamação um hábito, um vício espiritual. A murmuração acomoda, paralisa e endurece o coração. E não satisfeitos em murmurar entre nós, queremos estender nossos lamentos até Deus, como se Ele devesse se ajustar ao nosso mau humor e à nossa impaciência.
Por isso a Palavra é tão clara:
Não murmureis.
Não sejais pessimistas.
Reclamar continuamente nos afasta da confiança e nos prende à incredulidade.
A verdadeira fé não exige que Deus se prove como Deus. Crer não é testar, não é colocar o Senhor à prova. A fé autêntica leva à certeza de que Deus nos ama e tudo provê, mesmo quando não entendemos o caminho.
Quem crê, confia.
Quem confia, espera.
Isaías denuncia com força: “Será que achais pouco incomodar os homens, e passais a incomodar até o meu Deus?”
Quantas vezes nosso comportamento impaciente, nossas exigências e reclamações não se tornam um peso para os outros e até uma afronta à confiança em Deus? Em vez de escuta, oferecemos cobrança. Em vez de oração, exigência.
São José: o homem que soube esperar.
Em contraste absoluto com Acaz, o Evangelho nos apresenta São José. Diante de uma situação humanamente incompreensível, José não se entrega à ira, não reclama, não age por impulso.
Ele silencia, escuta e espera.
José não toma decisões precipitadas.
Ele aprende a ouvir Deus no silêncio, no sonho, no descanso. Enquanto o desespero grita, José vai dormir — não por fuga, mas por confiança. Dormir, aqui, é um ato de fé: reconhecer que Deus está no comando.
São José nos ensina que: não é a ira que resolve, não é a reclamação que esclarece, não é a pressa que salva.
Aprender a esperar em Deus é aprender a confiar que Ele age mesmo quando estamos em silêncio.
Neste Advento, somos convidados a abandonar a murmuração, a impaciência e a exigência de sinais. Deus não precisa se provar. Nós é que precisamos aprender a confiar.
Que o exemplo de São José cure em nós o coração de Acaz. Que, em vez da ira, escolhamos a fé. Em vez da reclamação, a esperança. Em vez do desespero, o descanso em Deus.
Porque quem espera no Senhor jamais será confundido.









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